Domingos

Hoje fiz um exercício de memória. Todos sabem que tenho memória de peixe dourado para assuntos recentes, 10′ não mais; mas também, que posso me lembrar de detalhes de um passado que todos davam por morto e enterrado.

Como quase tudo o que é passado, soam engraçadas as soluções que se deram aos problemas insolúveis, as lágrimas que hoje parecem desperdício, os momentos inesquecíveis que viraram Dejavú, enfim, estas voltas que a vida dá.

Adoro os domingos. E o exercício era lembrar-me desde quando tenho este fascínio. Os domingos não são dias preguiçosos para mim, e ao que me lembrei nunca foram. São esperados dia a dia de segunda a sábado, desde que eu era  menina. 

Consegui chegar até a primeira infância, quando os domingos eram na casa da minha avó materna. Um pouco entre a casa na Praia Grande, e a casa "da frente" de um grande terreno, separado por um enorme muro. Nós morávamos "nos fundos".

As primeiras lembranças foram os cheiros e sabores: macarrão com "carne do domingo"; uma peça de lagarto cozida em panela de pressão, com pedaços de cenoura, temperos e bacon, tradição que minha mãe também adotou. As meninas também conhecem por este nome. Família reunida, blá, blá.

Já nesta época, eu ia à missa. Caminhava uns quarteirões até a matriz de São Caetano. Engraçado que nem meus avós nem meus pais, o faziam, tampouco incentivavam, embora nunca tenham se oposto. Até, na Praia Grande, debaixo de um pouco de chacota das irmãs, e preocupação dos meus avos, eu ia à missa aos domingos, debaixo de sol ou chuva e uns bons quarteirões, do campo de aviação até o boqueirão.

Quando adolescente, fiz parte da comunidade de jovens da igreja. No final dos anos 70, éramos bastante engajados. Os mais velhos, no tiro de guerra ou na faculdade, os mais jovens, ouvintes. Violão nas mãos da maioria, alguns com flautas, uns poucos pianistas e até um tocador de banjo. Domingo era o grande dia. Missa, seguida de reunião, música, almoço na casa de alguém, e tardes na casa de outros.

Dá-lhe Chico, Mercedez, a indefectível rosa de hiroshima, íamos assim, caminhando e cantando, pelas ruas, parques e praças.

Tudo o que eu não queria era que o domingo acabasse.

Mais tarde um pouco: A Equipe de Bicicleta. Todo domingo, às 6h, nada mais nada menos, nos encontrávamos na casa do líder do grupo. Éramos uns 30. Às vezes mais. Pedalávamos do ABC até a USP, até a Casa de Pedra na estrada velha de Santos, e por aí vai. Já nestes tempos, enterrei as missas, dogmas e rituais. Fiquei com o Chico, Mercedez e Cia.

Depois da pedalada, almoço com a família, a carne de domingo, e por aí, já namorava.

Os domingos, que começavam muito cedo, quando eu via, já estavam acabando. Uma lástima.

Com as meninas pequenas, os domingos, continuavam longos e super ativos. Eram tantos banhos e mamadeiras, logo cedo, que os preparativos para passar o dia em atividades, iniciavam-se ao primeiro nhé. Patins, bicicleta, teatro infantil, clube, piscina, muita piscina e trampolins, praia, muita praia e bóias e pranchas e ondas e castelos de areia e cremes, almoço na casa da avó e uma sensação de missão cumprida, própria das mães que trabalham fora, ficam pouco com os filhos e desfrutam gota a gota cada minuto de oportunidade.

Há uns bons anos, os ritmos foram mudando lentos, mas perceptivelmente.

Ganhei da vida, os domingos. E eu os faço longos. Gosto do ritual da padaria, enriquecida com pequenos luxos dominicais como bolo de milho e pães de queijo, da conversa com meu jornaleiro, do meu lento café da manhã, do meu jornal fio a pavio, da escolha saborosa do programa do fim de tarde, das horas frente ao computador sem interrupções, do silêncio da TV e da casa, da escolha do CD sem consultas e pequenos prazeres da individualidade, como, trocar tudo isso por passar o dia inteiro fora: do concerto matinal na Sala São Pedro, emendado por uma seqüência de atividades, sem me preocupar com qualquer ordem, só voltando para dormir. Às vezes até, desligo o celular.

A grande novidade de alguns domingos dos últimos anos tem sido cozinhar (pasmem). Ainda não chegou na "carne de domingo", mas  já me arrisco entre massas, peixes e cozidos, delícias fáceis ou pedidos especiais, atendidos com cuidadosa e deliberada intenção de entrar no banco de memórias dos que amo. Reunir família e amigos, comer e blá, blá.

Longos e adoráveis domingos.

 

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Uma resposta para Domingos

  1. Unknown disse:

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