A ansiedade, a vergonha, a alegria e o exercício de blogar.

Para verborrágicos como eu, imagine que significativo pode ser o exercício da observação silenciosa. Um só dia e me sinto a caminho da meditação transcendental.

Observadora, sim, sempre fui, mas na primeira oportunidade transformava a informação em telefonema, comentário no escritório, e se possível, piada. O trânsito, a lei seca e o protesto das mulheres feias; a mulher do tempo que fala no rádio, tem voz de travesseiro. As novidades: processar o vizinho devedor do condomínio e tomar a vaga de estacionamento dele, que é  o melhor. Blindar escritórios advocatícios e garantir que os donos não consigam sair de lá; a normalidade das escutas telefônicas desde que não sejamos nós os escutados; meninas presas em celas masculinas, ou espancar doméstica, pensando que fosse prostituta, ah, essas não, ninguém lembra mais! Um ditador profissional a mais na África ou um aprendiz na América Latina? Um homem-bomba lá pode ser melhor que uma mulher TPM em casa! Há uma discussão na Folha entre dois especialistas e cientistas, um dizendo que o planeta vai esfriar; o outro, que vai esquentar.

Silêncio. Falar sozinha no carro está proibido.

No Cambuci, na entrada do minhocão, uma adolescente sentada na guia, com um bebê bem gordinho no colo, pede esmola. Não dou esmolas. Passo por ali diariamente há anos,  ela é nova no pedaço. A menina pegava nas bochechas do bebê, na boquinha, fazia cócegas e ele ria. Ele segurava o dedo dela. Abaixei o som do carro para ver melhor (?).

Noutro momento, eu escutava uma autoridade da saúde hoje. Ela me contou sobre um paciente que agrediu um jovem médico, quebrando-lhe o nariz e um dente. O paciente achou que seria agredido quando o médico tentava colocar um colete cervical nele.

Mantenho-me calada. Sinto alívio por não falar nada a respeito.

Passo pela represa da cidade de Mairiporã ao entardecer, com o sol  enorme e vermelho tingindo incrivelmente a água.

Conheci mulheres lindas hoje! Preocupadas com a educação da criançada e com projetos sócio-ambientais sérios, saúde… gente séria, fazendo o bem. Todas sorridentes, dispostas, tão ocupadas e tão solícitas. Todas bem arrumadas. Brasileiras, em cargo público, fazendo a diferença em nosso país.

Pedi muitas informações na rua para chegar aos meus destinos. Tratei coincidentemente apenas com homens. Todos me deram informações corretas, ninguém olhou torto, ninguém fez piada ou gracinha e um motoqueiro nos guiou por várias quadras, a troco de gentileza (?). Tratei coincidentemente apenas com cavalheiros.

É, diazinho especial de sorte!

Era hora de escolher o tema para blogar. Não consigo parar de pensar na menina sentada na guia com seu bebê. OK é aí, que temos que focar. Mas não estou confortável em desviar os olhos de todos os outros que vi, ouvi, conheci, e que estão fazendo alguma coisa para isso não acontecer mais. Nenhuma vez. Nunca mais. Então escrevi para essas pessoas.

PS- postado hoje, porque perdi meu pendrive por 24 horas – texto de 28 de julho

 

 

 

 

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