Fora do foco

 

Você se lembra do lambe-lambe? Nem eu. Mas me lembro das histórias que me contavam meus avos, somados aos vagos detalhes da memória dos meus pais. Coisas sobre pequenas e distantes cidades, praças, coretos, bandas e um famoso profissional: O fotógrafo.

 Reza a lenda que todos caminhavam muito, meio ao barro, para o grande momento. Coisa de grã-fino, material de luxo. Sinto-me privilegiada, pois possuo fotos de meus avos, bebês. Revelada numa espécie de papel cartão duríssimo, já ultrapassa 100 anos. Ali, estão registrados e impecavelmente arrumados: golas, colarinhos, laços, fitas, bebes no colo com tocas e sapatos brilhantes. Pose: casal ao centro, filhos mais velhos à volta, homens e mulheres sérios. Ninguém sorri. Impecável. Um trabalho primoroso de todos os envolvidos. Quem quer sair bem na foto, se esforça, caminha, economiza, reúne família, prepara-se, planeja e enfim, chega ao momento esperado, disposto a dar o melhor de si.

 É hora do lambe-lambe. Não pense que era assim, assim… Chegar, fotografar, pagar e tchau. Nada disso. Ele tinha o cenário e muitas vezes, os paletós, uma ou outra fita, laços, finos chapéus, uma luva para a senhora, sombrinhas, bengalas, coisas que embelezam a lembrança. Posicionava um por um. Movia os personagens de lugar quantas vezes fossem necessárias. Olhava e movia novamente. Olhava e acertava a franja de um, a gravata do outro. Olhava novamente. Dava dicas. Esperava o bebê parar de chorar, abanava a senhora enquanto o neto mamava. Enfim, um mestre zen pela excelência do resultado. O lindo retrato que vemos, é a soma do esforço conjunto da família, de cada um dos seus esforçados membros e de um excelente profissional criativo, atento, cuidadoso e paciente.

Hoje ninguém nem se lembra mais, das máquinas de filme. Já virou coisa de museu. E olha que a minha, fazia sucesso. A máquina digital revela uma geração que não se prepara para sair bem na foto. Se não ficar bom, apaga. Se não gostar, apaga. Quanto ao fotógrafo, todos são. Consulta-se o modelo: gostou? Ótimo! Não gostou? Apaga. Celular tem máquina. Gostou? Salva. Não gostou? Deleta. Bacana tanta modernidade, tanta facilidade e custo tão baixo. Todos têm o direito de guardar lembranças de momentos inesquecíveis que nem sempre a retina e a memória nos garantirão, após tantos anos. Acho uma maravilha.

Embora tão democrático e rápido este novo movimento social não se reflete em todas as dinâmicas da vida. Ao contrário, percebo que para muitos momentos inesquecíveis e gloriosos, dependemos de particular esforço pessoal, do olhar atento aos detalhes, tratamento de choque com o planejamento, carinho e atenção à possibilidade de erro e da ajuda de muita gente desejosa por um mesmo cenário feliz. Sem contar, a inevitável técnica.

Se não temos nos saído bem na foto, temos que ajustar as lentes. 

 

                                                 

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Sobre eliborba

Textos comuns para pessoas comuns sobre momentos comuns que se tornam especiais
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