Epíteto

 

Domingão. Eu e os domingos! Feliz da vida, lá fui eu, à banca de jornal buscar minha folha e iniciar minha nova coleção: os Cd’s de Bossa Nova. Ansiosa, feito criança, esperei cada dia por este momento. Embora eu tenha muita informação deste tipo, entre livros, arte e música, eu não canso da Bossa. Como os outros lançamentos da folha, jazz e clássicos, os livros são bem formatados, bem acabados, possuem boas e bonitas fotos e qualidade de informação. Desta vez, assina um mestre de conhecimento e caneta: Ruy Castro. Quem leu qualquer um dos livros dele sobre música popular brasileira e biografias sabe que estamos falando de alguém que entende do assunto. E muito. Ah, que delícia, tirar aquele papel celofane que envolve os cd’s. Um misto de prazer, pois eram livros também. Adoro abrir livros novos. Que cheirinho gostoso que têm! As páginas tinindo de brilhantes. Sempre olho primeiro as fotos. Depois, pequenos comentários. Fico namorando um pouco, aqui e ali, a capa, a contra capa, o cd, para só então começar a ler de verdade. Tenho o costume de ler de trás para frente. Inclusive minhas revistas. A Veja, por exemplo, leio por último as páginas amarelas.

Certa de que aprenderia mais um montão de coisas, olhava atentamente cada página. Como nasceu tal música? Quem era amigo de quem? Quem conheceu quem primeiro? Essas bobagens que encantam aqueles que gostam de um determinado assunto. Os dois primeiros lançamentos tratam de Tom Jobim e Dick Farney. Nenhuma grande novidade. Tem as fotos, como sempre. Mas para colecionar? Que investimento! Tratei de ler, com cuidado, minúcias que justificassem meu mimo. Culpa da compra compulsiva.

Eis que encontro: Uma referência clássica que eu nunca havia visto assim, em forma de decreto: Epíteto do Tom Jobim: o papa da bossa nova. Epíteto de Dick Farney: voz de travesseiro.

Epíteto – (Aurélio)1. Palavra ou frase que qualifica pessoa ou coisa; 2. Cognome.

Estive no cinema. Encantei-me com a suavidade do que vi. Coisa rara passar bem com tema tão difícil. Uma historia entre judeus e árabes. Estamos mais acostumados a vê-los nos noticiários de guerra. Bem ali, na cara do gol, entre Cisjordânia, faixa de gaza, Jerusalém, é… O filme tinha todos os ingredientes: Ação da imprensa, negociações internacionais, o escandaloso muro, religião, cultura, costumes, amor, ironia e conflitos, muitos conflitos. Nenhum tiro é bom que se saiba. Bem, alguns, mas não do tipo que mata alguém. O diretor optou por diferentes possibilidades de se causar dor e matar. Receita acertada para esse excelente filme.

É preciso termos claramente quem são nossos amigos e inimigos. Lembra daquele: dormindo com o inimigo? E sempre podemos nos surpreender, considerando que tantas vezes somos nós os nossos inimigos. Quem nunca se sabotou, que atire a primeira pedra.

Mas, lá pras tantas percebi que faltava delicadeza no meu olhar. Eu assistia a um processo de silêncios entre duas mulheres. Introspecções transformadoras. Se há muitas formas de causar dor e matar, há muitas mais de respeitar e amar.

Nosso epíteto, nós construímos ao longo de nossas vidas, embora pareça que nos dêem os ouvintes.

 

 

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