Vento, Vela, Leme

Toda manhã, perto das seis e meia, plena matina, uma, no banco do acompanhante do carro, desce o quebra sol com a mão direita, abre o estojo do blush, bate levemente o pincel sobre o pó rosado, vira-o, coloca-o a média distância da sua boca, e sopra suavemente as cerdas, para que o excesso de pó, tão lindo, voe para longe da possibilidade do exagero e do artificial. Claro, para longe também de suas roupas. Olha-se cuidadosamente no espelho, enfrentando a luz da manhã e o sono, faz um biquinho de um lado para outro e passa o pincel sobre as bochechas que já foram delineadas pela natureza. Ela tem a cor de pele mais linda, doce e suave que meus olhos jamais viram. Ela gosta de filosofia e bruxaria. Seus olhos grandes são como a boca de um poço fundo de águas turvas.

Altiva, a outra parece saber o que quer todo o tempo, como se isso fosse possível. Sua maneira de andar e gesticular, prender os cabelos num rabo de cavalo ousado e contemporâneo, sinaliza sua condição independente e festiva diante do mundo que segura nas mãos. Sempre que pára, distraída, relaxada, coloca seus pés ligeiramente virados com a ponta para dentro. Este trejeito de reveladora timidez e fragilidade combina com o momento sublime em que ela, com seus delicados movimentos, tenta colocar insistentemente mecha por mecha dos seus longos e loiros cabelos atrás da orelha paciente e repetidas vezes, para a alegria do meu ego que tão pouco desfruta em mim, de momentos de tanta feminilidade.

Sob o signo dos evoluídos, aquela, não sabe que permanece presente quando não está, e de sua falta quando se faz de ausente. Lança modas, agrega pessoas, interfere no cotidiano, e tudo isso, como se nada. Nem percebe. Ou percebe. Eu, é que nunca saberei. Tudo nela é bem-estar. Tem um quê não sei de quê que atraí a todos. Um magnetismo próprio e espontâneo, que lhe abre caminhos por onde passa. Um olho que lê a alma. Seus dentes alvos e grandes fazem ciúmes às estrelas do meu universo. Quando sorri, meu mundo se ilumina.

Pareço um andarilho sem rumo, um mendigo desalinhado, uma nau sem velas. Um objeto esquecido no canto da casa, sem importância, tomando pó, juntando-se as tranqueiras. Qualquer coisa ao lado delas, é nada. Nada perto delas, é tão maravilhoso. Tudo nelas é futuro, é brilho, é vida, é sangue quente. São idéias, desejos, sonhos, vibração, energia e beleza concentradas em três corpos. Cada um deles, com seu rumo. Cada uma delas com sua própria vida em suas mãos, transformando minhas náuseas em alegrias, minhas vertigens em realidades ardentes. Rastejo-me diante de tanta grandeza.

É assim que elas sopram minha vida prá frente a cada dia, me prendem entre seus dedos para conservar minha frágil necessidade de sentir-me livre. Disfarçadamente dão espaço a céu aberto e mar calmo para que eu conquiste meus sonhos sem que meu orgulho se fira. Me permitem ser o farol que sempre quiz.

Dizem que Deus, não dá azas a serpente, mas a piedade divina coloca algumas entre flores.

 

http://www.youtube.com/watch?v=cxxBelcrr3w

 

         Vento, Vela, Leme   

   

         Vento, Vela, Leme - Thaísa      

  

         IMG_9775

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3 respostas para Vento, Vela, Leme

  1. Debinha disse:

    Cada um é como é… Por fora tudo bem, por dentro nao…Ninguem parece com ninguem
     
    te amo s2

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