Espelho

Outro dia uma colega de trabalho, linda e inteligente falou pra todo mundo que eu falo sozinha quando estou trabalhando. Que absurdo!  Eu falo sim, claro! Mas não sozinha. Com meu computador. Recentemente, levei um peixinho de mascote para o escritório, e agora falo com ele também. Mas antes, falava com meu grampeador, que nunca estava lá quando eu mais precisava dele, algumas folhas com informações importantes, destas que sempre somem quanto mais temos pressa, e principalmente minhas planilhas de excell, e-mails que voltam, pastas de arquivo brincalhonas que se escondem, enfim, falo com meus amigos de trabalho. Acho que ela falou aquilo para chamar atenção. Preciso conversar mais com ela.  Onde já se viu dizer que eu, falo sozinha. Que injustiça! De médico, um pouco, mas de louco?

O Jô, o gordo, diz que fala sozinho e que é ótimo, porque assim ele sempre tem razão. Eu acho engraçado, mas veja, eu nunca tive esta intenção, falando com meus fiéis companheiros. Dentro do carro, sou acusada pelas meninas de flagrante delito falando sozinha. Quem me acusa disto, pegou o bonde andando e quiz sentar na janelinha: Comigo Não!  Seguramente, se fui flagrada falando no carro sem companhia visível aos olhos terrenos, era porque estava concentrada na solução de algum problema que exigia revisão de fatos, argumentos, elaboração sofisticada de frases de efeito, enfim, teste de erudição! É outra coisa. Todo bom livro de oratória recomenda que seus alunos falem diante do espelho antes de suas apresentações. Eu não poderia dentro do carro, ficar olhando para o espelho retrovisor o tempo todo, seria falta de segurança. Irresponsabilidade de motorista. Eu? Eu jamais me distrairia por conta da oratória. Resolvo de maneira simples e prática. Treino o discurso que farei sem me olhar no espelho, por que sou uma pessoa segura. Apenas preciso me escutar e não preciso ficar me olhando. Tá vendo como tem explicação? Mas não querem saber de explicações, ficam julgando sem observar melhor, sem antes perguntar.

Tem as pessoas nas ruas também: A gordinha de blusa muito curta, o que parou em fila dupla, o caminhoneiro que fica olhando minhas pernas, a criança que devia estar brincando no pateo da escola e está ali no farol, o simpático vendedor de água, o assustador limpador de pára-brisa, os que estão dormindo no chão, ao meu lado no farol, o porco que abre o vidro do carro e joga o lixo pra fora, bom, e eles? Ninguém conta os invisíveis da nossa sociedade? Pois saibam que eu falo com eles, mas o vidro está fechado e eles não escutam. Eu gosto de ar condicionado. E quer saber? Depois de falar com eles, conto tudo para o Heródoto, Milton, Patrícia Palumbo, quem estiver ali. E brigo mesmo: Com o presidente, o governador, o prefeito, este bando de vereadores em São Paulo, entro no planalto batendo os pés firmes e vou logo pedindo providências pra todo mundo. Já sei, vão pensar que eu só reclamo? Enganados! De novo! Eu elogio os que estão fazendo alguma coisa para melhor e que são misturados por ignorância na mesma lama. Chego a chorar. Emociono-me com os resultados de pequenas ações que vão dando certo pelo caminho. Sejam deles, lá no salão verde ou azul, sejam de outros tantos civis que em pequenos grupos vão fazendo o que dá a sua volta. Emociono-me! Como faria para me emocionar sozinha? Com os resultados da minha fantástica culinária? Com o fato de ter acertado a roupa para o clima do dia?  Por tomar um fora do paquera? Por ter sido desvendada no escritório? Porque a bolsa caiu cinco dias seguidos? Claro que não. Emociono-me e chego a chorar porque estou no meio deste furacão chamado Brasil, vendo e ouvindo tanta coisa, compactando milhares de cenas ao mesmo tempo no meu insignificante cérebro e peço ajuda da língua e das mãos para resumir os principais fatos antes de arquivá-los. Isso é trabalho de equipe. Corporal. Mas é. Ta vendo só? Agora me devem desculpas. E tenho dito. 

 

http://www.youtube.com/watch?v=z34T8MEagy0&NR=1

 

                                                                

                   cinderela                              bruxa

 

                                    

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2 respostas para Espelho

  1. Beto disse:

    Adorei o texto, falar sozinho é até normal no ambiente de trabalho, o problema é quando rola um %$#&# (palavrão) sem querer. Trazer bichinhos pra mesa de trabalho é otimo tb, como um peixe, minha tática hj em dia no trabalho é a música mesmo (no fone de ouvido), bom que eu desligo do ambiente em volta e foco mais no "meu" trabalho…já que o ambiente aqui é agitado.PS: Trabalho como designer numa faculdade de Belo Horizonte – marketingAbraços…volto depois

  2. Rebeca disse:

    huauhau..
    toda expressao de sentimento é valida..
    assim como toda forma de amor..e tudo mais..
    pode continua falando sozinha
    uma otima maneira de nao guardar sentimentos nem os bons e nem os ruina..e nem os mais ou menos..
    eu jah nao falo..soh penso..
    pra mim tah bom assim..
    de medica sim..mais de louca eu disfarço..
    hhuahuaha
    eu penso..
     

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