É como andar de bicicleta

Quando escutei malemolência pela primeira vez foi inesquecível. Que swing, que gostoso! Cada pedacinho de som, bem colocadinho ali no meio do silêncio. Um acorde após o outro, como as paixões, suponho. Um suspiro, uma nota, uma palpitação, outra nota, uma pausa, dois beijinhos, uma alegria, um arranjo, um sustenido, uma saudade. As palavras se juntando a esse delicioso molejo, como a esperança que se junta a desejos. A cadência da novidade. Imagens limpas, sons delicados, paladares convidativos, cheiros sutis e jeitos que se acomodam devagar. Cada dente num elo. Tudo isso equilibrado por frágeis raios.  Dou-me conta agora, de quão gostosa pode ser a preguiça de relacionar-se, trocando as marchas para aliviar o peso e deixando  que o vento bata no rosto natural e suavemente.

 Não sei se malemolência se traduz melhor no caminhar da garota que cresceu na areia da praia, no jogo de ombros do surfista quando troca o mar pelo asfalto ou na fala em códigos que exige tradução aos não iniciados, mas todas as condições básicas me levam a crer que malemolência é tão restrito que não temos em São Paulo. Que ciúme! Será que podemos adaptar? Sabe aquele que fala baixinho, tem frases curtas, brincadeiras sutis, tiradas rápidas, inteligência aguda e silêncios adoráveis? Será que pode ser malemolência paulista? Usamos as ferramentas que temos, ora bolas, é justo! Nem todo carioca tem malemolência, nem todo paulista haveria de tê-la também. A famosa elegância discreta de nossas meninas pode-se adaptar? Preguiça, sim! Mas cuidado, é manobra de especialista. Tem que treinar muito. Tem que ser preguiça como a de Dorival Caymmi. Delicada, tranqüila de dar inveja. Sabe aquele ruído, nhec, nhec, que faz a rede antiga quando balança bem devagarzinho? Barulho de madeira rangendo com água do mar batendo embaixo? Então, é isso! Bom, por aqui, poderia ser: Manhã de domingo com chuva, frio, cobertor de orelha, sem compromisso e celular desligado. Uau! É quase um sonho. Pois é, este é o som da malemolência que seguramos com as duas mãos no guidão. Estou pra dizer que malemolência é mais linda e singular que saudade: Não só: Só nós temos. Só alguns de nós temos e só de vez em quando. Só alguns, sabemos.

Jazz tem. Todo mundo fala junto, baixinho e ninguém atrapalha ninguém. Que conversa acertada, que coisa boa! Se for assim, muito mais gentes têm. Baião de dois, tem. Cuíca tamborim e breque fazem isso pelo samba.  Eita, e como fazem bem. Por falar em conversa gostosa e em coisa boa, deve tá cheio de mineiro, que tem! Eles já saem com vantagem: tomam menos tombo quando estão aprendendo.

Boteco, em geral, tem. Tem garota atravessando o salão devagar e entre cadeiras e mesas só pra dar mole, quer mais que isso? Tem tímidos que estão ali, com o coração na garganta, dando de ombros. Tem gente que olha de frente e tem gente que olha de lado. Tem gente que foge com o olhar para baixo. Mas onde tiver gente na esperança de conseguir uns metros a mais de alegria, de amor, de simplesmente passar bem, ou aquele instante da dúvida, aquele momento de decidir na investida confessar ao amigo mais próximo seus desejos e medos, aquele friozinho na barriga e o arrepio na espinha, não há dúvida: Ali, tem malemolência!

Como toda conversa mole, cercada de bons amigos, tem na entrada a alegria do reencontro, no meio o deleite da permanência  e na conta a calor de despedida,  que elas venham assim, devagarzinho, de mansinho, falando e escutando, dando e recebendo,  dissimulando o passado e distraindo o futuro. Que troque antigas lembranças por novos assuntos, transforme sombras em cores. Malemolências da vida. Delícias que a memória eterniza.

Quem não sabe, aprende. Quem sabe, não esquece.

 

 

 http://br.youtube.com/watch?v=g-9C9E2YVz8

 

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3 respostas para É como andar de bicicleta

  1. den disse:

    tá aí uma coisa que modéstia a parte eu sei que eu tenho

  2. SIDNEY disse:

    essa tal de malemolência écoisa, tenho de vez em quando, mas tenho.
    muito bom este texto, adorei

  3. Beto disse:

    Ei Eli…que pena que vc não conseguiu baixar o Cd da Elizabeth Shepherd, vou lhe ensinar…seguinte:
    1 – clique na capa do cd no meu blog
    2 – vai abri uma página (z share)
    3 – clique em "download now"…em laranja
    4 – Um tempo regresivo irá começar…espere terminar e..
    5 – clique em "Click here to start your download"
    6 – salve o arquivo na sua maquina
    7 – depois de baixar abre o arquivo usando um descompactador (winrar), que deve esta previamente instalando na sua maquina.
    e é isto ai…qualquer coisa lhe ajudo mais.
     
    Abraço

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