Borrar o batom

Fui prestigiar o novo esporte de uma das meninas: Muay Thai.  Uma sessão de tortura assistir minha filha bater e apanhar. Tive que sair da sala.

Treinei um pouco de Tae kwon Do quando era menina, incentivo de boas companhias, mas minha vida de atleta, se é que se pode dizer assim, cercou-se de bola de basquete e bicicleta. Minha escola esportiva é a do esforço coletivo e minha posição de rebote se consolida diariamente. Quanto à mania de melhoria contínua, devo essa ao líder da equipe de bicicleta, em longas distâncias de disciplina. Mais recentemente, aprendi e me encantei com o squash, individual, sim, mas muito exigente com a concentração. Põe exigente nisso. Obrigada a todos os mestres. À parte esta história de medalhas, passo a vida a pregar a paz e sou completamente contra a revolução armada. Dos livros do Che e Marx, guardo as fotografias. Minha vida profissional não é do tipo que reconhece esforços, apenas resultados e anos de lida acabaram me influenciando mais que a vida esportiva. Percebida a falha, passei a encarar o esporte como uma possibilidade de equilíbrio pessoal.

Do lado de fora da sala eu respirava fundo, a fim de restaurar alguma lógica no que vi. É um esporte. Tem estratégia. Tem tática. Tem foco. O treinador é responsável e competente. É campeão mundial na categoria e professor de educação física. OK, voltei. Ele dizia a ela: não tire o olho do adversário! Mantenha a guarda fechada! Bate e sai! Esquiva e entra! Abaixa e avança! Pensa na seqüência de golpes! E eu, não conseguia pensar em nada. Seria um teste de resiliência ao vivo e em cores?

Com o condicionamento físico em dia, após duros exercícios de aquecimento, incansável treino nos sacos, e preparação no chão, os atletas em duplas têm direito a duas lutas seguidas, com dois adversários diferentes. Para este momento, usa-se o ringue de medidas oficiais. Luvas de Box, protetor nos dentes e um capacete esquisito.

 É tal de esquivar-se daquela luva certeira que vem na direção e na força de um bom soco, e dá-lhe devolver um chutão aproveitando-se da proximidade do combatido. Atentos ao técnico, os atletas vão agindo rapidamente. Melhorias nas entradas e saídas dos golpes que se aproximam. Quem presta mais atenção ao que o técnico grita ao fundo da academia, age mais rápido. Dá pra perceber assistindo. Tem atleta com quem o técnico cansa de gritar, mas ele não muda. Outros, basta ele falar uma vez, que o cara já sai fazendo. Aos meus olhos despreparados, é uma farta distribuição de terror. Parece briga de rua. Eu, por mim, mandava todo mundo pro chuveiro e uma semana de castigo, sem sair de casa, hehehe.

 Bater e apanhar, não tirar o olho um segundo, não perder a pegada, não sair do ritmo, manter-se vivo ao final e preferencialmente, campeão.

 Dá pra perder uns quilos, e ficar durinha. Ótimo! Mas podem custar uns dentes e os hematomas não caem bem com minissaia. Enfim.

A certa altura do campeonato, já entregue ao cansaço noturno, banho cheiroso, creminho daqui, creminho dali, na paz e aconchego da cama confortável, tranquilinha com meus livros, controle remoto pertinho, olhava distraída, longe, focando uma sandália de saltos bem altos que ficaram fora do lugar no meio do quarto pensando na caminhada de trinta minutos que teria que fazer no dia seguinte cedinho, e eternamente inconformada com meus quilinhos a mais, pensei: O que é que eu fui fazer lá? Lembrei. Fui prestigiar minha filha que gosta de coisas diferentes das minhas. E ela ficou muito feliz com minha presença. Ainda bem!

 

 

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3 respostas para Borrar o batom

  1. Beto disse:

    Ver qualquer pessoa querida, num campo de batalha (digo no esporte) como neste seu caso deve mesmo ser torturante, lembro de quando era mais novo e fazia judó, certa vez participei de um campeonato mirim (eu era bem novo mesmo), eu lembro bem do meu avô gritando: "bate nele!!!…soca a cara dele!!!…", eu tinha uns 5, 6 anos só, perdi o campeonato mas sai com meu avô depois pra tomar sorvete, já ganhei meu dia ai.

  2. Debinha disse:

    Foco, esse é o ponto. Um dia mi falaram que quando se tem foco, nao precisa de muita coisa mais. Claro, tirando essas coisas que todo mundo precisa, amigos, familia, amores e saude claro. Alguns ematomas, um pedaço de dente a menos, nao pensar mais em mini saia e muito menos no salto alto, sao escolhas. Apenas escolhas. O importante, o que realmente conta, é o prazer, o prazer de fazer, de lutar, de subir no ring e na hora de sair colocar um tenis, e ainda explicar, to de tenis, porque to toda doida, mais quer saber?? Ganhei, foi legal. Aprendi como faz.

  3. dennys disse:

    é incrível qunando um filho, alguém que pela órdem natural das coisas deveria aprender com você, te ensina a ver um lado das coisas que você nunca tinha parado pra reparar, lutas marciais são esportes milenares vindos de vários cantos do mundo, cheios de honra e técnica e praticados por grandes atletas e uma menina não perde a feminilidade e a delicadeza só porque gosta de dar umas porradas de vez em quando, se todas as mulheres fizessem isso seriam menos propensas a surtos emocionais, talves. Quanto à sua vida esportiva, não precisa se jogar num tatame mas uma meia horinha de academia umas três vezes por semana já estartia de bom tamanho, se bem que você tem a bike e as caminahdas, já é um bom exercício só não vale deixar que o trabalho tome parte do tempo que se deve dedicar a si mesmo, a saúde, a beleza e a auto estima devem ser mais que uma importância na nossa vida, deve ser a nossa prioridade. Beijão Eli  

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