Brincadeira de Criança

                                                      Nesta semana estive conversando com uma amiga e ela se lembrou que quando era menina, brincando com sua irmã, usou um rolo de papel de fax inteiro, tirando Xerox de dinheirinho de banco imobiliário para brincar de fazer compras. Foi o suficiente para desatar um nó na minha memória sobre as brincadeiras que vivi com minhas irmãs quando éramos pequenas. Mas põe pequenas nisso. Brincávamos de casinha, sim, mas já éramos todas moderninhas. Cada uma tinha sua casa. Para isso, cada uma escolhia um cômodo. Sacola de feira, forrada com toalha de banho, era Moisés de boneca. Todas usavam roupas extravagantes, óculos, chapéu, cachecol, bolsas e diferenciais que encontrávamos nos armários da mamãe e vovó. Nenhuma das duas em casa. Minha avó morava um pouco na Praia Grande, um pouco conosco e na nossa casa tinha um quarto só para ela e meu avô, com mobiliário completo, inclusive roupas. Minha mãe…Bem, quando nós pensávamos em sermos modernas, minha mãe já era contemporânea a seu modo. Sempre trabalhou fora, dia e noite. Vida de professora. Num tempo em que mulher trabalhar fora era exceção, e não a regra. Cada uma de nós escolhia uma profissão, e sempre tinha uma que trabalhava no banco. Íamos ao banco, preenchíamos a folha de cheque, devidamente grampeada no talão de cheques confeccionado com folha de caderno, com direito a assinatura e conferência. Sacávamos dinheiro e íamos às compras. Comida, necessidades para a casa e assim, nós nos encontrávamos pelo quintal, todas cheias de prosa, prá lá e prá cá, visitávamos umas as outras, com direito a chá. Na casa dos meus avos, na Praia Grande, meu avô mantinha na garagem uma bancada de ferramentas, com morsa, serrotes, martelos, milhões de chaves de fenda, alicates de diversos tamanhos e cabos de cores diferentes e me lembro bem, que num canto, próximo à mesa de trabalho havia uma lata de tinta vazia, bem batida para não haver pontas, cheia de pedaços e tocos de madeira de todo tamanho. Os pregos e parafusos do meu avô eram separados em ene latinhas, por tamanho, cabeça, tipo de rosca e por aí vai. Era ali que eu fazia com pedaços de madeira que ele me deixava serrar sozinha, rádios para contatos imediatos com meus amigos invisíveis, e inimigos também! Com um enorme prego num dos lados, minha antena de conexão com o mundo imaginário estava pronta e os mil desenhos com uma caneta esferográfica, algo como um telefone atual, cheio de números e estrelas, lembrando que nesta época, telefone era de disco, completavam o visual do meu rádio transmissor. A sonoplastia completava o cenário: shiiii, pi, pi,  atenção, câmbio, câmbio, e eu corria envolta da enorme casa, me escondia embaixo do tanque, atrás da horta, perto do pneu do fusca verde do vovô. Esconder-se de alguém ou atacar alguém, invisível, era o mote. Aliás, não só os invisíveis, pois nós nos escondíamos dentro dos armários ou embaixo das camas, quando meu pai chegava a casa. E lá vinha ele: Ercilia, cadê as crianças? E nós, no silêncio dos casacos cúmplices, respondíamos miau, miau, e meu pai completava: Ercilia, esta casa está cheia de gatos! Diga-se de passagem, os dois brincaram com minhas filhas igualmente, tal qual e perfeitamente assim, mas, nesta época do lado de fora do guarda roupa eu tive a felicidade de ver o brilho nos olhos dos já avôs e das crianças, as minhas meninas. Também gostávamos de imitar meus pais. Uma de nós cruzava a sala com o radinho de pilha de capa marrom, pendurado no pulso, aquele que parecia não pegar outra coisa senão Vicente Leporace e aquela música matinal: vambora, vambora, olha a hora, vambora, vambora…., enrolada no roupão de banho e assoando o nariz. Era minha mãe. Meu pai, sempre foi imitado, lendo o jornal, sentado em sua poltrona e balançando a perna. Em geral, um lápis fazia a vez do cigarro. À parte o cigarro e a perna balançando, leio o jornal como meu pai e, eu uso roupão de banho como minha mãe. Uma de minhas irmãs é professora e outra, contadora como meu pai. Eu engraxo sapatos como meu avô; Separo os pregos e parafusos como ele também.  Não me aproximo da pia, sem avental, como minha avó e mãe. Eu continuo tentando contato com seres inimagináveis. Amigos e inimigos.

 

                                                       

                                               

                                                               

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2 respostas para Brincadeira de Criança

  1. Paty disse:

    Buenas Eli… tempo que não nos falamos. Td bom?…"O pulo do gato"… seu novo post me lembrou da minha infância e de todas essas brincadeiras citadas e de quanto sou parecida com meu pai, isso mesmo sendo adotada. Em pensar que as novas gerações nunca terão essa simplicidade???E trabalhar no Play deve ser a coisa mais fantástica… show, show, show… parabéns!!!Ótimo feriado. bjo

  2. Simone disse:

    Oi Eli,Resolvi escrever novamente no meu blog, após ler apenas o título deste texto "brincadeiras de criança", antes mesmo de lê-lo…Nossa olhei para o Gui brincando e lembrei de tantas coisas que brinquei, tanta criatividade…Tive um tempinho aqui com os babies e comecei…É tão bom relembrar as coisas que vivemos não é?? Acho que gostei da brincadeira, agora basta ter tempo para sentar e escrever, vamos ver se conseguirei!!Achei ótimo as suas recordações, eram simples como as minhas, porém cheias de criatividade!Beijos e saudades!Simone

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