Imortalidade

Neste último mês, recebi duas terríveis notícias de falecimento. Maria Romero, argentina, médica cirurgiã, que esteve cursando uma especialização no Hospital A.C.Camargo, durante quatro meses em 2008 e por este motivo, me brindou com sua companhia morando na minha casa, 36 anos.  Sofreu um acidente fatal de automóvel numa auto pista em Buenos Ayres. Laércio Ferraz cidadão de São Caetano do Sul foi dono de uma bicicletaria no centro da cidade,  movimentou em seu entorno, mais de 100 jovens para pedalar aos domingos bem cedinho e nos passeios ciclísticos da cidade e das cidades adjacentes, em meados dos anos 80. Com suas bicicletas diferentes como a de seis lugares, sempre chamava atenção para sua equipe toda uniformizada em vermelho e preto.  Assim, que pegos de surpresa ou não, a morte é uma invariável da vida, e como tal, deveríamos tratá-la com maior naturalidade e segundo a regra comum, não conseguimos. Sentimos-nos apartados de ações e impotentes, sobretudo quando nos leva a juventude com violência e sem aviso prévio. Aqui em São Paulo, o índice de violência voltou a subir depois de um uma década de controle e redução. É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte! A imortalidade é um teste para ilustres, famosos, intelectuais ou cientistas. Serão imortais apenas os que sobreviverem à chuva de celebridades instantâneas que nos assola. Recentemente assisti “À Partida”, a um delicado filme japonês que trata da morte súbita de uma orquestra sinfônica e do conseqüente nascimento de uma nova vida para um violoncelista; da morte de um pai desconhecido e do nascimento de uma nova forma de vida. Vida e morte, uma equipe. Minha irmã, me conta feliz que encontrou à venda, um clássico do cinema e das sessões da tarde nos anos 70/80, “Paraíso Perdido”. Trata-se de um grupo de sobreviventes na neve que encontra uma passagem para um Oásis onde além de beleza, calor, flores, frutos e comida, não envelheciam. Ali se instalaram durante anos e anos, para a decisão final e mordaz de partir. Afinal, não envelhecer é um sonho humano que começa nos creminhos da Avon, passa por tecnologias do bisturi, avança sem certeza pela literatura, ciência, música, artes ou obras de engenharia e perpetua nos filhos. Desta forma, nós pobres mortais, não letrados ou pobremente letrados, chegamos séculos à frente com uma ajudinha básica dos nossos netos. E olha lá! A tomar, por exemplo, o pouco que alguns sabem de seus avós e antecessores. Ontem, estive na Praça Roosevelt, querida Praça Roosevelt, feia, fedida, suja, pixada e escura Praça Roosevelt, com seus teatros e pessoas que circulam e dão vida e contemporaneidade à este reduto paulista de cultura independente, indicações à prêmios, cervejas de 600ml e doces caseiros.  Ali, um mini teatro de pouco mais de 4 meses de vida, apresenta três espetáculos diferentes. As 16h, 21h e meia-noite. No intervalo entre a peça das 21h e meia noite, um grupo de jovens toca uma gostosa música ao vivo, num ambiente que é transformado com a criatividade e graça de quem faz com cubos de madeira, uma página da revista Casa Claudia. A peça das 21h, trás um texto psicanalítico do diário de um monge em 1.100, em plena treva. Treva mesmo. Até o Papa e os reis deste sórdido momento da história não são aclamados e oxalá sejam esquecidos junto com os prejuízos que trouxeram. Em contra partida, a moçadinha do intervalo, cantou entre tantas delícias uma  singela homenagem à Revolução dos Cravos, “Tanto mar”, de Chico Buarque. Como tantas revoluções que iniciam com altos ideais e desabam, para a manutenção do poder, Chico muda a letra, mas não a evolução da história ou a imortalidade dos fatos. Com o ano França no Brasil, fomos forçados a nos lembrar que em 14 de Julho, comemorou-se na França, a queda da Bastilha, e assim, a destruição de um símbolo é o símbolo da construção de um novo mundo. Se partirmos ou chegarmos, se partidas são também chegadas, se inícios são fins e vice-versa, fato é que temos a oportunidade agora de agirmos como se fossemos imortalizar nossos atos e ideais. Sugiro distribuirmos incontidos abraços, inesquecíveis olhares ou palavras que falem à alma. Proponho que deixemos marcas de passos para que os que venham atrás possam seguir sem medo, embora tenham a diretriz de novos rumos. Que  sintam-se orgulhosos dos nossos feitos.. E que o esquecimento não nos assole.

 

                                                             

 

 

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