Frente Fria

Antigamente merthiolate ardia; E muito. Hoje, não arde. E já vem com o sopro. Oras bolas, e quem é que quer que já venha com o sopro, se justamente o sopro era o mais legal! Mãe, vó, tia, professora, namorado, melhor amiga…Alguém  parava o mundo por uns instantes só para cuidar do nosso machucado.  Se já vem com sopro, em minha opinião, não serve. Mercúrio cromo, se sabe, sempre curou do mesmo jeito e não ardia, mas tinha a desvantagem de sujar tudo. Reflitam comigo sobre a delícia desta cerimônia: O mercúrio como sujava tudo, ficava guardado em lugar escondido do armário, e para usar era necessário algodão e muitas vezes até… Gaze. Imagine só um curativo coberto com gaze, prezo com esparadrapo, feito com mercúrio, que resulta num joelho que não cabe embaixo da calça jeans! É um xodó que não tem fim. Coisa até mais de vó que de mãe, te tanto mimo. Hirudoide, é coisa de tempos modernos. Não arde, não mancha, tira o roxo, mas tem que esfregar bem cima do machucado. Afê, quem é que quer esfregar encima do lugar que está dolorido? Só mesmo se alguém fizer isso para você, e com muito carinho, e devagar, de leve e tiver paciência para ouvir: Ai, ai, não aperta, tá doendo, pára, tá bom… e por aí vai. E machucar, tem lado bom? Bem, o beijinho, a atenção de quem nos cuida, faltar na aula e levar bilhetinho para justificar, sobremesa especial, todo mundo falando: Coitadinha! Doeu muito? Hihihi, aí sim! Começo a ver alguma vantagem no desastre.  Dura pouco, mas é tão gostoso! E ficar resfriado então… Nossa, quando rola um mimo dá vontade de ficarmos uns dias a mais de cama. Enfim, quando estamos feridos, precisamos de ajuda. Lastimas têm uma coisa em comum: Doem. No corpo, na alma, na razão ou na vergonha, onde for, dói. Curas tem várias cores e formas.

Cura a La Merthiolate: Dói prá caramba, você tem que fazer cara de valente, e não deixa vestígios. Em geral, se chora baixinho e escondido.

Cura a La Mercúrio Crohmo: Não arde, sara, mas mancha tudo a sua volta. Inclusive quem participa. Não faz chorar, mas a exposição é longa.

Cura a La Hirudóide: Vem num tubinho fácil de passar. Prático, resolve mesmo. Mas para ver o resultado só esfregando muito. Suspeito que dói tanto ou mais do que esperar que sare sozinho.

Bonitinho mesmo é lembrar-se da água oxigenada, que era cheirosinha, fazia espuminha e se dizia que se fez espuminha é porque está matando os micróbios! Acho doce este comentário e sigo repetindo-o. Depois, o famoso band-aid. É o príncipe dos curativos.  O lado sem sal desta simplicidade é que podemos resolver tudo nós mesmos, sem choro escondido e sem deixar vestígios.  Prá piorar não precisa de sopro. Afê, ninguém nem vê que a gente se machucou!

Bom mesmo é não se machucar. Mas quem poderá passar incólume nesta vida sem um arranhão? Criança que não brinca está doente! Adolescente que não se bate nos cantos, é um E.T. entre amigos. Copos quebram, coisas caem, portas e janelas se abrem em nossas cabeças distraídas. Pessoas chegam e partem e nem sempre nossos corações estão distraídos. Situações surpreendem. Há comportamentos que são como febres, se repetem nos desgastam, nos derretem e não há nada a fazer, senão esperar passar. Há palavras que causam enormes estragos. Há silêncios que ferem. Melhor do que o silêncio, só João!

Quem não se arriscar, não vai brincar, não vai se divertir, não vai aproveitar a vida. O medo pode transformar nossos silêncios interiores em verdadeiros cânceres. Isto não significa transformar a existência numa apoteose de desastres contínuos e evitáveis, tampouco sair em desabalada carreira atrás de tudo que pareça diversão sem evitar os arranhões. Nananinanão. Significa tentar. Participar. Fazer parte. Dividir os riscos e os medos do tombo com a satisfação do suor, o cansaço da vitória e a boca seca do pódium. Seria fantástico se tivéssemos certeza de que vai valer a pena à cicatriz. Diante disso, o que temos aqui: arrisca, cai, machuca, dói, sara, arrisca, cai, machuca, dói, sara, arrisca, cai, machuca, dói, pede ajuda e quebra o ciclo. E aí, machucar-se faz apenas parte do processo. Pedir ajuda é que é genial. E dói também.

PS- Em caso de frente fria, leve agasalho.

 

 

 

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